|
Hoje, dia 21/10/2001, enquanto eu caminhava em direção ao ponto de ônibus para vir à universidade, não pude deixar de olhar um retrato de Iemanjá que estava exposto na porta de uma dessas casas comerciais que vendem produtos afro-religiosos. Algo nele chamou minha atenção. Foi aquela mulher que estava ali retratada: alta, clara, sexy, com longos cabelos negros escorridos que desciam até a cintura. Olhei o quadro ligeiramente e continuei a caminhar. Sentei-me no banco do ponto de ônibus, mas aquela imagem não me saía da mente. Algo nela tinha chamado muito minha atenção e ao mesmo tempo me fugia à memória. De repente, num relâmpago, lembrei das palavras "cultura e aculturação". Comecei a refletir sobre o quanto havia de traço cultural africano naquele quadro de Iemanjá. Deuses de diferentes povos são visualizados conforme a cultura e características de cada povo e por isso são diferentes na aparência, nos costumes e também nos nomes, conforme o idioma de cada cultura. Por exemplo: Buda possui característica asiática, Jesus tem características indo-européia e os deuses indígenas só poderiam ser imaginados como índios e jamais negros, asiáticos ou europeus. Seria absurdo imaginarmos Jesus com características asiática ou indígena sem que ele tivesse essas cargas genéticas em sua constituição física. Seria também absurdo imaginarmos Iemanjá daquela forma como estava retratada naquele quadro onde todos os traços étnicos africano eram negados através da arte plástica, negando sua origem. Mãe da maioria dos orixás, Iemanjá é representada como mulher de meia idade e com seios volumosos, que deram origem aos rios e orixás africanos e, é lógico, "negra" como uma noite enluarada. Então pensei o quanto a Europa nos aculturou, a ponto de imaginarmos uma entidade africana nativa de pele clara, sem aquele pigmento tão característico da pele dos negros africanos e dos afro-descendentes. Na condição de babalorixá e seguidor da cultura religiosa afro-brasileira não posso ficar calado diante desses fatos. Se antes houve essa necessidade de sincretização, não é porque "antigamente era assim que tem que continuar sendo assim". Devemos valorizar nossa cultura, nossa negritude, dentro dos valores africanos e não dentro do valor da cultura dominante (européia), se quisermos ser autênticos. Chega da farsa daqueles que se auto-intitulam "defensores fervorosos da cultura afro-brasileira" mas o fazem dentro dos valores da cultura dominante (européia). Usam e abusam de títulos acadêmicos (Ms, Dr, Phd...) mas nunca ou em raríssimas exceções se expõem em público como iyalorixá, babalorixa, filhos de santo ou frequentadores de cultos afro-brasileiros. Isso é fruto da aculturação que os africanos nativos ou nós, afro-descendentes, sofremos durante todo o período em que fomos colônias de países europeus. Essa violência cultural foi, e é tão marcante, e também deixou uma cicatriz tão forte na cultura afro-brasileira que mudou, até mesmo, as características dos orixás africanos e bem como o ritual litúrgico. Por exemplo, o deus africano mensageiro entre a humanidade e o Deus Supremo dos africanos (Olodumare, Zâmbi, Zambiapongo, Oxalá, Olorum... - tenha ele o nome que tiver dependendo de cada nação - grupo étnico -) foi tão aviltado que ainda hoje é retratado como o "diabo" católico, em todas as suas mais horrendas representações. Então eu penso aqui com os meus botões: por que Exu não foi, não é, ou raríssimamente é associado à divindades de outras culturas européias que desempenhavam o mesmo papel que ele dentro de suas culturas; como por exemplo: Mercúrio dos romanos e Hermes dos gregos? Por que justamente com o diabo católico? Por que o mal e todos os tipos de energias negativas têm que ser representados pela cor negra e não por outra cor qualquer? Mas essa é uma outra história que será comentada outro dia... Eu tenho as minhas respostas à essas perguntas e, certamente, você também tem as suas. Não seria essa a hora de babalorixás e Iyalorixás sentarem-se juntos, em grupos de trabalho, para discutirem com seriedade essas questões? O convite está feito! É só você aceitar e nos contatar. Para nós da Uniafro/SC será um prazer intermediar. Basta você querer. Omobaomi - Babalorixá |