Carta do Chefe Seattle

Em
1851, um dos grandes chefes indígenas chamado Seattle, da tribo dos Suquamish,
juntamente com outros chefes indígenas americanos, enviou uma carta ao governo
dos Estados Unidos da América, considerada como sendo uma das mais lindas e
profundas declarações em defesa do meio ambiente. Essa carta é a resposta a
proposta de compra remetida pelo governo americano, que pretendia adquirir dos
indígenas uma grande quantidade de terras onde estavam assentadas as sua
aldeias. A proposta de compra pelo governo americano consistia da aquisição de
2.000.000 (dois milhões) de acres pelo valor de US$ 150.000.00 (cento e cinqüenta
mil dólares americanos). Esse documento histórico, segundo informações, foi
entregue ao Presidente dos Estados Unidos em 1854. Esse documento notável
demonstra a grande consciência ecológica dos indígenas, que vêem a sua
sobrevivência ligada intimamente a sobrevivência da Mãe Natureza. Essa consciência
coletiva estava, e ainda está, presente nas culturas indígenas dos povos nos
cinco continentes. A cidade de Seattle tem esse nome em homenagem ao grande
chefe Suquamish.

O
ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo
sopro: o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo
sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem
agonizante há vários dias, é insensível ao [seu próprio] mau cheiro. (...)
Portanto,
vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se nós a
decidirmos aceitar, imporei uma condição: O homem branco deve tratar os
animais desta terra como seus irmãos.
O
que é o homem sem os animais? Se os animais se fossem, o homem morreria de uma
grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece
com o homem. Há uma lição em tudo. Tudo está ligado.
Vocês
devem ensinar às sua crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós.
Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com a
vida de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas: que a
terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à Terra, acontecerá também aos
filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Disto
nós sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem é que pertence à terra.
Disto sabemos: todas as coisas então ligadas como o sangue que une uma família.
Há uma ligação em tudo.
O
que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu a
teia da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizermos ao
tecido, fará o homem a si mesmo.
Mesmo
o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode
estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo.
Veremos. De uma coisa estamos certos ( e o homem branco poderá vir a descobrir
um dia ): Deus é um só, qualquer que seja o nome que lhe dêem. Vocês podem
pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível.
Ele é o Deus do homem e sua compaixão é igual para o homem branco e para o
homem vermelho. A terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar o seu Criador. Os
homens brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras
tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios
dejetos.
Mas
quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força
do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio
sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós,
pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos
bravios sejam todos domados, os recantos secretos das florestas densa
impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruídas por
fios que falam. Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a água?
Desapareceu. É o final da vida e o inicio da sobrevivência.
Como
é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos
parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água,
como é possível comprá-los?
Cada
pedaço de terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro,
cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e
inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência do meu povo. A seiva
que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem
vermelho...
Essa
água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o
sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem
lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é
sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos
e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus
ancestrais.
Os
rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e
alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar
e ensinar para seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E,
portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos
que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para
ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem
à noite e extrai da terra tudo que necessita. A terra, para ele, não é
sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, extraindo dela o que
deseja, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados
e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se
importa... Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu
não sei... nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades
fere os olhos do homem vermelho. Talvez porque o homem vermelho seja um selvagem
e não compreenda.
Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater de asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta de um homem, se não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
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Fonte: Texto da Carta: http://www.geocities.com./AthensColumn/8413/seattle.html
Foto e texto ("..."): http://www.cetesb.sp.gov.br/Ambiente/carta.asp