UNIAFRO 

União de Cultura Negra em Santa Catarina - Uniafro

 

A VISITA

 

 

          Lá vai o velho caminhando pela estrada. É noite quando chega à cidade. Poucos notam sua presença, A cidade tem pressa, o trânsito está insuportável. Pessoas preparam-se para chegar ema casa, outras para ir à escola. Muitos cansados e desiludidos enfrentam horas de fila na vã esperança de obter uma colocação no mercado de trabalho. Ele observava as pessoas, tem pena daqueles que já não carregam a esperança dentro de si. Vagarosamente, caminha em direção ao bairro nobre da cidade. Lá chegando, aborda um abastado senhor. Pede-lhe um prato de comida. Como resposta recebe um monte de impropérios. É escorraçado dali, pois a segurança é acionada. Entristecido, dirige-se à periferia. Avista uma casinha de alvenaria é atendido pelo por uma senhora jovem, em cujo rosto percebe as marcas da tristeza. Pede-lhe comida. A moça argumenta que todos ali estão passando dificuldades. O marido está na cama sofrendo grave enfermidade. Ela está desempregada, assim como os dois filhos mais velhos, o pequenino já não vai à escola, pois o dinheiro para a compra de material foi usado com remédios para o esposo. Prepara-se para ir embora, mas ela o surpreende convidando-o a entrar. Diz: “onde comem cinco comem seis”. Sobre a mesa arroz, feijão e ovos fritos. Tudo o que podem fazer. Todos se sentam à mesa, menos o esposo que permanece no quando gemendo de dor. Antes de iniciarem o jantar, ela convida a todos para rezarem, pedido a Oxalá que abençoe aquele alimento e as pessoas que moram na casa, e também pede saúde ao amado esposo. Faz mais do que isso, durante a prece, ela pede a Zâmbi que guie os passos do visitante, sinceramente preocupada com a vida e com a sorte de um velho solitário e errante. O velho sorri para ela emocionado e agradecido. Ela explica que é umbandista, freqüenta um Terreiro ali mesmo no bairro. Está na gira há pouco tempo, mas ama profundamente os Orixás e Guias, pois foi com eles que aprendeu a ter paciência e fé, nunca se desesperar, e a estar sempre pronta para prestar à caridade. E assim ela foi com prazer e alegria. É verdade que a família passa por dificuldade, mas, isso não os torna rancorosos ou revoltados. Assim que eles terminaram o jantar, o velho agradece a hospitalidade e deseja boa sorte a todos da casa. Lá fora a noite já chegou. Se dependesse da família, ele dormiria ali, porém a casa é tão pequena que isso seria quase impossível. Ainda assim, ofereceram para ele o sofá da sala. Ele agradece e acalma a todos dizendo que realmente deve partir. Antes pede para ver o marido que está no quarto gemendo de dor. Ato contínuo adentra ao quarto. Nesse momento algo de muito estranho acontece: uma enorme luminosidade toma conta do dormitório. O doente que até então gemia, grita emocionado. A esposa e os filhos que estavam na cozinha correm assustados. Encontram o homem sentado na cama chorando emocionado. Nem sinal do velho. Após o choro a revelação. Quando o velho entrou no quarto suas roupas se transformaram numa veste de palha e imediatamente, se curou. Agora aquela família toda chorava. Lá fora na estrada, Obaluayê sorria feliz e seguia sua caminhada. ATOTÔ!!!

Autor: Cássio Ribeiro - Fonte original: CasadeUmbanda

 

Fonte utilizada pela Uniafro: Jornal Umbanda Branca – APEU – Associação de Pesquisas Espirituais Ubatuba – nº 30 - Ano II – Novembro/2007