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UNIAFRO
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União de Cultura Negra em Santa Catarina - Uniafro |
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DESPEDIDA DA VIDA TERRENA
Não poderia deixar de escrever essa crônica como forma de despedida da vida terrena e como homenagem póstuma à grande Iyálorixá que foi a pessoa a quem conheci e chamava respeitosamente de Dona Tereza (MariaTereza Bonete Martins).
Lembro, de minha adolescência, quando Dona Tereza chegou no Terreiro de minha mãe, Tenda Espírita de Umbanda Juraciara, para dar continuidade ao seu desenvolvimento espiritual. Na época, ela freqüentava um Terreiro de ritual de Umbanda, no Balneário do Estreito. Vinda à nossa Casa, Tenda Espírita de Umbanda Juraciara, casa de Nação Omoloko, mas na qual prevalecia o culto de Umbanda de Caboclo, Dona Tereza se adaptou muitíssimo bem. Dando incorporação às suas Entidades: Caboclo Cobra Verde, Vó Guilhermina, Ogum de Lei e a Bombogira Cigana Maria Rosa, muita caridade ajudou a realizar em nossa Casa. Querida por todos, nunca perdia uma gíra, e muitas vezes levava pelas mãos os seus filhos para que não ficassem sozinhos em casa. O mais velho deles, Giovani, hoje é Babalorixá do ritual de Almas e Angola, e também pesquisador de cultos afro-brasileiros, especialmente do culto afro-brasileiro de Almas e Angola na cidade de Florianópolis e no Estado de Santa Catarina.
Dona Tereza, possuidora de um dom mediúnico espetacular tratava, através de seus Orixás e Entidades, todos que lhe pediam auxílio, a qualquer momento que a procurassem, dando exemplo de como deveria se portar um médium de verdade, um médium responsável. Lembro de uma das obrigações que minha mãe fez à Cachoeira da Guarda do Cubatão, quando ela solicitou aos Caboclos que lhe trouxessem uma "Prova de Mata", eu fui incubido de acompanhar o Caboclo Cobra Verde na busca dessa prova. Ele queria a todo custo trazer uma cobra, que a insistente pedidos da Iyálorixá Giloyá ele aceitou mudar e trazer uma prova de folhas. Acompanhei-o pelo meio da mata fechada até que ele encontrou o arbusto que continha as folhas que desejava levar. Ele pediu-me para que eu pegasse o axé; então comecei a pegar as folhas. Ele mandou que eu parasse e disse que era para que eu arrancasse o arbusto. Eu olhei para ele e obedeci. Com as duas mãos, usando de toda a minha força, tentei, em vão, arrancar o arbusto do solo. Nada consegui, por mais que me esforçasse. Então, para minha surpresa, Seu Cobra Verde me empurrou para o lado e com uma única mão puxou o arbusto como se ele estive solto no solo. Realmente isso me impressionou muito, pois eu mesmo tentei retirá-lo do solo e sequer consegui fazê-lo mover um centímetro. Dona Tereza era um médium fantástico. Inúmeras lembranças tenho desse dom que Deus lhe deu. Dando continuidade ao seu desenvolvimento espiritual, realizou a sua Obrigação de Camarinha dentro dos preceitos da Nação Omoloko, na Tenda Espírita de Umbanda Juraciára, para os Orixás Nanã e Ogum.
Dona Tereza deixou a Tenda Espírita de Umbanda Juraciara quando minha mãe, a Iyálorixá Giloyá, teve de dar Obrigação ao seu Orixá Obaluaiyê. Como a mãe de santo de minha mãe (Giloyá) já havia falecido e de não haver nenhuma outra Casa de Omoloko em Florianópolis à qual ela pudesse recorrer, ela realizou a Obrigação com Iyáromi, dentro dos preceitos do Candomblé de Angola, por ser a nação que mais se aproximava da nação Omoloko, por ter em comum a mesma raiz - a Nação Bantu. Nesse meio-tempo, Dona Tereza, por achar que não se adaptaria ao Candomblé, vai para a Casa de Mãe Ilka, de ritual Almas e Angola, e lá realiza as Obrigações dentro daquele ritual, dando as Obrigações de 7 e 14 anos de santo. Em 27/09/1988, ela abre a sua Casa de Orixá, a Tenda Espírita Caboclo Cobra Verde, onde continuou a realizar a caridade àqueles que a procuravam e iniciando outros filhos dentro do ritual de Almas e Angola, dando muitos e bons frutos ao culto afro-brasileiro.
Para mim, pessoalmente, Dona Tereza foi um exemplo de médium e de Iyálorixá a ser seguido. Sempre solícita às necessidades de quem a procurasse, a todos tratava com muito e respeito e carinho. Certamente deixará saudades àqueles que a conheciam, e sempre estará presente através do ensinamento correto e do bom exemplo deixado de herança a seus filhos e irmãos de santo de como ser um bom filho de fé. Dona Tereza, Mãe Tereza de Oxalá, como era chamada por seus filhos de Almas e Angola, fez a passagem para o Orum no dia 23/12/2006.
Apolônio A da Silva Coord. Geral - Uniafro
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