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UNIÃO DE CULTURA NEGRA EM SANTA CATARINA

INFORMATIVO UNIAFRO N.º 04 - Setembro e Outubro de 2001

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RAÇA VIVA

Raça minha, mãe eterna

O céu é o mesmo daqui, mas

Os atabaques mãe, trazem notícia de ti

África, Egito, terra brava

Da mãe mais terna que

Saciou fome de estranhos,

Teve filhos de ninguém

Mas correm ao sol, mãe, querem tua cor

Não sabem que carregam o teu gen...

Surgiram pedra e muitas, mas tu

Persistes em ser terna, humilde e gentil

Nos teu campos os animais são livres

E as matas, muitas, virgens,

Acorrentam o caçador, ainda caçam

Mãezinha, meu corpo traz sinais de fugas

Entre ervas e gente daninhas.

Raça minha, mãe sem cor

De tanto lavar mágoas e saciar ira

Daqueles que não crêem no amor

Eles chegam, muitos, mas tu mãe,

És maior, tira as contas do tempo,

Faz mandingas, chora e benze ladainhas,

Ele se abaixam, temem confessar

Usaram tudo, tua escultura e ocultam

Teu real valor, mãe quero ser como tu,

Que rezas pelas almas penadas

Que te usam, abusam, mas no fundo te amam...

Raça minha, mãe eterna

Que te expões ao sol até pretejar,

Que te abaixas ao reio até cortar,

Que ora e benze até curar,

Que joga e dança até tombar...

Raça minha, mãe serena

De meu berço, sinto a força

De teus braços me acariciando,

Porque tu, flor dos campos

Destes teus pedaços aos feitores

Da cultura e hoje mãezinha,

Nas argolas de ouro,

Ouço a voz do meu povo,

É um hino homogêneo,

Do leão que ainda ruge:

Que a terra é forte o solo é quente,

A mente é fértil e a boca ávida,

A vontade é grande e o recurso é pouco,

Mãe, me dá a paz de teu povo

Tira-me as algemas

Traga as asas de teus pássaros,

Abra estradas, eu quero caminhar.

É estes pés calejados,

Sem cor e com razão,

Leva teu rastro mãe

Deixa no pó a canção:

Da mãe eterna dos campos

Da África, Egito e tantos,

Que soltou os filhos no mundo,

Mas não cortou o cordão!

RUTH DE SOUZA SALEME

(POETA)

Ruth de Souza Saleme, autora do poema acima (Poema Raça Viva), nasceu em São Paulo, em 1949. Pós-graduada em Educação do Excepcional, é Agente Comunitária Cultural. Realiza trabalhos para integração cultural e eliminação de preconceitos nas comunidades e para integração dos portadores de deficiências. Realizou e produziu projetos, de arte e cultura em nveis municipal, estadual e nacional. Publicou em 1986 o poema RAÇA VIVA, tendo sido premiada na Bienal do Livro daquele ano. Em 1991 publicou Cobra Norato e Maria Caninana, pela Editora Fênix e, também, no ano Seguinte, pela mesma editora, A Cigarra e a Formiga, adaptação para crianças, de estórias do folclore. Em Coletêneas

participou de Impressões Poemas, antologia dos poetas do Centro de Oratória Rui Barbosa, em 1981, AXÉ - Antologia da Poesia Negra Contemporânea, São Paulo, Global, 1982 e, em 1995, da FINALLY US COMTEMPORARAY BLACK BRAZILIAN WOMEN WRITERS, Three Continent Press. Em Raça Viva, a poetisa, ou a poeta, como as mulheres preferem ser chamada Ruth demonstra toda a sua sensibilidade, no que diz respeito à problemática da fixação do negro escravizado no Brasil.

Através da poeta, percebe-se que os sons dos atabaques ainda ressoam alto, nos ouvidos e tocam fundo os corações dos descendentes africanos. Basta procurar sentir! O negro fixado no Brasil, vencidos os problemas infligidos pelos anos de descaracterização racial e os preconceitos impostos pela cultura dominante, sente, no fundo de sua alma, lembrança e a saudade da terra mãe.

"Nas argolas de ouro, Ouço a voz do meu povo, É um hino homogêneo, Do Leão que ainda ruge:"

Por mais de uma vez, a poeta faz menção ao retorno psicológico e inconsciente às origens, talvez, um desejo refreado por fatores sócio-culturais, ao universo seccionado pela escravidão.

"Tira-me as algemas, Traga as asas de teus pássaros, Abra estradas, eu quero caminhar"

Por fim, Ruth sela o incontido desejo, ao afirmar da mãe eterna, que , alheia a sua vontade,

"...soltou os filhos no mundo

Mas não cortou o cordão!"

Matéria enviada por Olomi - Ebomy

Fonte: AFRA - Revista de Cultura Afro-brasileira - ANO 1 Nº 1 - JANEIRO - 2002 - www.revista.afracultural.nom.br/



 

ACULTURADOS OU NÃO?!

              Hoje, dia 21/10/2001, enquanto eu caminhava em direção ao ponto de ônibus para vir à universidade, não pude deixar de olhar um retrato de Iemanjá que estava exposto na porta de uma dessas casas comerciais que vendem produtos afro-religiosos. Algo nele chamou minha atenção. Foi aquela mulher que estava ali retratada: alta, clara, sexy, com longos cabelos negros escorridos que desciam até a cintura. Olhei o quadro ligeiramente e continuei a caminhar. Sentei-me no banco do ponto de ônibus, mas aquela imagem não me saía da mente. Algo nela tinha chamado muito minha atenção e ao mesmo tempo me fugia à memória. De repente, num relâmpago, lembrei das palavras "cultura e aculturação". Comecei a refletir sobre o quanto havia de traço cultural africano naquele quadro de Iemanjá. Deuses de diferentes povos são visualizados conforme a cultura e características de cada povo e por isso são diferentes na aparência, nos costumes e também nos nomes, conforme o idioma de cada cultura. Por exemplo: Buda possui característica asiática, Jesus tem características indo-européia e os deuses indígenas só poderiam ser imaginados como índios e jamais negros, asiáticos ou europeus. Seria absurdo imaginarmos Jesus com características asiática ou indígena sem que ele tivesse essas cargas genéticas em sua constituição física. Seria também absurdo imaginarmos Iemanjá daquela forma como estava retratada naquele quadro onde todos os traços étnicos africano eram negados através da arte plástica, negando sua origem. Mãe da maioria dos orixás, Iemanjá é representada como mulher de meia idade e com seios volumosos, que deram origem aos rios e orixás africanos e, é lógico, "negra" como uma noite enluarada. Então pensei o quanto a Europa nos aculturou a ponto de imaginarmos uma entidade africana nativa de pele clara sem aquele pigmento tão característico da pele dos negros africanos e dos afro-descendentes.

           Na condição de babalorixá e seguidor da cultura religiosa afro-brasileira não posso ficar calado diante desses fatos. Se antes houve essa necessidade de sincretização, hoje ela não é mais cessária. Não é porque "antigamente era assim" que tem que continuar sendo assim. Devemos valorizar nossa cultura, nossa negritude dentro dos valores africanos e não dentro do valor da cultura dominante (européia), se quisermos ser autênticos. Chega da farsa daqueles que se auto-intitulam "defensores fervorosos da cultura afro-brasileira" mas o fazem dentro dos valores da cultura dominante. Usam e abusam de títulos acadêmicos (Ms, Dr, Phd...) mas nunca ou em raríssimas exceções se expõem em público como iyalorixá, babalorixa, filhos de santo ou freqüentadores de cultos afro-brasileiros. Isso é fruto da aculturação que os africanos nativos ou nós, afro-descendentes, sofremos durante todo o período em que fomos colônias de países europeus. Essa violência cultural foi e é tão marcante e também deixou uma cicatriz tão forte na cultura afro-brasileira, que mudou até mesmo características dos orixás africanos e bem como do ritual litúrgico. Por exemplo, o deus africano mensageiro entre a humanidade e o Deus Supremo dos africanos (Olodumare, Zâmbi, Zambiapongo, Oxalá, Olorum... - tenha ele o nome que tiver dependendo de cada nação - grupo étnico -) foi tão aviltado que ainda hoje é retratado como o "diabo" católico, em todas as suas mais horrendas representações. Então eu penso aqui com os meus botões: por que Exu não foi, não é, ou raríssimamente é associado à divindades de outras culturas européias que desempenhavam o mesmo papel que ele dentro de suas culturas, como por exemplo: Mercúrio (dos romanos) e Hermes (dos gregos)? Por que justamente com o diabo católico? Por que o mal e todos os tipos de energias negativas têm que ser representados pela cor negra e não por outra cor qualquer?   

           Mas essa é uma outra história que será comentada outro dia...

           Eu tenho as minhas respostas à essas perguntas e, certamente, você também tem as suas. Não seria essa a hora de babalorixás e Iyalorixás sentarem-se juntos, em grupos de trabalho, para discutirem com seriedade essas questões?

           O convite está feito! É só você aceitar e nos contatar. Para nós da Uniafro/SC será um prazer intermediar. Basta você querer.

Omobaomi - Babalorixá


Image24.gif (47406 bytes)ZUMBI e TIRADENTES

Temos dois heróis no Brasil: Zumbi dos Palmares e Tiradentes. Ambos representam os mesmos valores, os mesmos desejos, o mesmo sacrifício fundamental. São heróis não porque tenham vencido batalhas - ambos foram derrotados e punidos com a morte. Ambos saem do mais profundo do povo brasileiro, até mesmo na vulgaridade soluta de seus nomes. Ambos têm uma biografia sem importância no cômputo geral da História Mais do que carne e osso são símbolos de uma nacionalidade que se está formando e por cujos valores tiveram sacrificada a vida. O que há de positivo nestes valores é que deve interessar-nos: o desejo absoluto de liberdade ao preço da própria vida - esta é a lição de Zumbi e do Tiradentes. Não são os detalhes do que ambos foram quando estavam vivos que dão sinal de sua importância. Como todos nós, devem Ter tido suas " fraquezas ": seus problemas amorosos e familiares, seus pequenos deslizes econômicos, as dí;vidas que deixaram de ser pagas, a palavra excessiva dita num momento de cólera - tudo é parte de sua humanidade. O que os cinge de uma luz diferente e mais clara é o que representam para um povo que se está criando ainda, e que é também o melhor pedaço do que todos somos: o nosso desejo de afirmação, a nossa esperança de que num futuro que nos espera aí adiante vamos ser todos iguais e livres. Comemorar Zumbi dos Palmares (e Tiradentes) num país em que cada dia estes ideais parecem mais distantes pode parecer ato de gratuita futilidade ou frivolidade. Creio que não. O que é preciso é dar-lhes o valor real de seu símbolo, sem distorções que procurem apenas encobrir a realidade de seu sacrifício. Que não se transformem em comendas distribuídas por um estamento político, hipócrita e perverso - que não os usemos como nomes de fundações oficiais e de medalhas coloridas - mas continuem com a profunda representatividade que seus nomes indicam. Como fazer isto? Talvez apenas pela lembrança de que o início de consciencialização que representam é um processo em continuidade. A liberdade política com que Tiradentes sonhava, amordaçada então pelo "quinto" que os colonos pagavam à Metrópole, ainda se encontra presa aos juros da dívida externa; a igualitária República de Palmares de Zumbi ainda é apenas sonho para os que vivem nas senzalas dos morros de favelas e dos cortiços da miséria de hoje.

[Esta pequena seleção de poetas afro-brasileiros foi feita no ano tricentenário de Zumbi dos Palmares.] Heitor Martins, Lino Guedes, Solano Trindade, Abelardo Rodrigues, Eduardo de Oliveira, Oliveira Silveira, Ângela Lopes Galvão, Oswaldo de Camargo, Adão Ventura e Estevão Maya-Maya.

PALMARES PALMARES MEU AMOR - Pequena antologia de poetas afro-brasileiros em homenagem ao Zumbi de Palmares, no tricentenário de sua morte

Artigo enviado por Sandra Ferreira - retirado de páginas da Internet