POR QUE É TÃO DIFÍCIL A ORGANIZAÇÃO DOS TERREIROS AFRO-BRASILEIROS?!
Por
que é tão difícil a organização dos terreiros afro-brasileiros? A resposta
a essa pergunta é complexa. Diferentemente das outras religiões, os templos
onde se cultuam a religião afro-brasileira não pertencem as comunidades
religiosas, mas sim a uma única pessoa ou família. Essa pessoa, geralmente é
o babalorixá ou a yalorixá responsável pelo funcionamento do templo. Por ser
o dono do imóvel onde o Terreiro funciona, esse(a) babalorixá ou yalorixá não
se sente obrigado a submeter-se a qualquer entidade tipo federação, conselho,
união ou qualquer outro tipo de entidade afro-religiosa que vise organizar ou
fiscalizar as suas atividades, mesmo que de comum acordo. Ao contrário
dos terreiros afros-brasileiros, as igrejas evangélicas são geralmente
estruturadas em um imóvel que pertence a própria igreja ou por ela alugado. O
sacerdote que irá dirigir a igreja, o pastor, é geralmente contratado pelo
comunidade evangélica que a frequenta e mantém financeiramente. Nesse caso o
pastor é considerado um funcionário da igreja, uma vez que ele recebe
pagamento para exercer essa atividade durante 24 horas. Enquanto o pastor é
remunerado para se pôr a disposição da comunidade que frequenta a igreja
durante 24 horas, o babalorixá ou yalorixá não recebe pagamento algum para
realizar a mesma atividade na comunicade afro-religiosa, no mesmo período de
tempo. Poderíamos até dizer que em alguns casos o próprio babalorixá ou
yalorixá paga para exercer essa função, uma vez que ele geralmente arca com a
maior parte das despesas para manter o seu Terreiro. Outro diferencial entre a
organização dessas duas religiões é a estruturação de um Terreiro e uma
igreja evangélica é a sua manutenção. Enquanto o primeiro sobrevive com baixíssimas
mensalidades, que as vezes nem são pagas em dia, e praticamente as custas do
babalorixá ou yalorixá para administrar as suas despesas, a igreja evangélica
arrecada 10% do salário do crente, já deduzido em folha de pagamento, além
das outras formas de arrecadação que ocorre a cada culto. Como vemos, a
diferença de arrecadação é brutal e isso faz com que as igrejas evangélicas
prosperarem materialmente, podendo oferecer serviços aos seus associados,
enquanto os Terreiros afros mal conseguem se manter funcionando por seu caixa
está geralmente no vermelho. Outra diferença importante é a forma como os
adeptos encaram a religiosidade e o seu relacionamento com o seu templo.
Enquanto os evangélicos reservam os finais de semana (sábado e domingo) para
trabalharem na divulgação da sua religião, buscando mais adéptos para as
suas igrejas e vêem isso como uma atividade muito importante para o
desenvolvimento da sua igreja e da sua fé, os cultuadores das religiões
afro-brasileiras, em sua maioria, fazem justamente o contrário. Outro
diferencial gritante é a forma como os templos religiosos são vistos pelos
adeptos. Enquanto o evangélico vê a igreja como propriedade coletiva onde
todos que a frequentam e a mantém se sentem dono dela; os adeptos dos Terreiros
afros não se vêem dessa forma por terem o Terreiro como propriedade do
babalorixá ou yalorixá, por estar o Terreiro estruturado sob o terreno do
sacerdote afro-brasileiro. Poderia ficar enumerando outras diferenças entre
essas duas estruturas religiosas, mas o espaço disponível é curto, por isso
vou finalizando por aqui. Entretanto não poderia deixar de frisar o engajamento
político dessas duas religiões. Enquanto os evangélicos possuem
representantes nas bancadas do Congresso Nacional para defender os seus
interesses, os adeptos da religião afro não possuem nenhum. E se é que existe
algum, pelo menos não se coloca abertamente como defensor dos interesses da
religião afro-brasileira. Para ilustrar a importância disso, basta lembrar a
busca do apoio da comunidade evangélica por parte de alguns candidatos a presidência
da república na última eleição. Essas diferenças somadas a outras fazem com
que algumas ramificações evangélicas sejam economicamente poderosíssimas,
possuem bancos, redes de rádio e televisão. Por outro lado, a religião
afro-brasileira, mesmo somadas todas as suas ramificações, não possuem sequer
um programa de rádio, raras exceções em alguns Estados, o que não é o caso
de Santa Catarina. Concluindo, não comparei aqui as diferenças estruturais com
a Igreja Católica por ser essa uma Instituição milenar, com fortes e antigas
raízes em nosso país e no mundo, constituindo-se, geograficamente, em um país-sede
– o Vaticano, em Roma, na Itália. Por esse motivo, escolhi as igrejas evangélicas
por causa do seu recente expansionismo no Brasil nos últimos trinta anos.
Omobaomi – Babalorixá