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Sent: Monday, March 21, 2005 3:22 PM
Subject: A saga dos deuses guaranis!
História
mitológica inédita dos índios guaranis Mbyás de São Miguel, Biguaçu (Santa
Catarina).
No
princípio dos tempos, a Terra era habitada por criaturas abomináveis. Eram os "Pamba'e
Djaguá" (Feras Extraordinárias). "Nhanderu ete", o
deus supremo do universo, decidiu eliminar os "Pamba'e Djaguá"
lançando sobre a terra uma estrela incandescente, a "Djatchir Tata'i
guatchú".
Tidos
como criaturas do mal, os "Pambá é Djaguá", que a civilização
ocidental chama de "Dinossauros" ("Lagartos Terríveis" em
grego), foram mortos pelo terrível calor provocado pelo cometa. Sobre as cinzas
deste mundo, "Nhanderú etê"decidiu repovoá-lo com um novo
ser, o "Homem".
Em
guarani, "Nhanderú etê" significa "Deus
Verdadeiro". É o Deus de forma humana cujos olhos refletem a infinidade
das cores. Onde aparece, reflete luz. Vaga pelo cosmos num veículo voador
chamado "Bairý".
"Nhanderu
ete"
percorreu o "Nhe'ê Rekuagui", o "lugar das almas", o
mundo dos espíritos. De lá trouxe "Nhande ypy", o
"Primeiro Homem", transportando-o em seu "Bairý" até
a Terra.
Chegando
aqui em nosso planeta, "Nhanderu ete" advertiu a "Nhande
ypy" que sua missão era povoar a Terra e não permitir que o egoísmo
tomasse conta dos corações de seus descendentes. Acrescentou o deus que o egoísmo
tornar-se-ia a raiz de todo o mal da humanidade pois desencadeia as guerras e
toda sorte de violência do homem contra o homem. Advertiu para que os homens
prezassem por sua memória, cujo exemplo inspiraria os homens a praticar o bem.
Nascia ali a religião guarani.
-
Nunca pense em si para que a humanidade não sofra, aconselhou
profeticamente o Deus na língua do mundo dos espíritos que se transformou no
primeira idioma da Terra, segundos os guaranis mbyás.
"Nhandeý
pý" era um espírito. Chegando à Terra, transformou-se num
"homem" de carne e osso. Um espírito, se quiser e tiver a energia
necessária, pode se materializar em forma de um corpo, diz a tradição dos índios
guarani.
"Nhandeý
pý" , o "Adão" dos guarani mbyá, ficou dois anos sozinho
na Terra. "Mokõi aragudjê" (dois anos depois), eis que o deus
"Nhanderú etê" voltou ao mundo espiritual "Nheé
Rekuaguí"para trazer uma "Nhande Tchir pý" (A 1ª
mulher). Tomando-a como esposa, "Nhandeý pý"teve seis filhos
cujos nomes são: 1) Kraí í (Poder Divino), 2) Nhamandú
(Reflexo do Sol), 3) Djatchir (Dona da Noite), 4) Wherá Tupã
(Deus da Chuva), 5) Wherá Nhimbodjerê (Dia e Noite, o giro da Terra) e
6) Pará Guatchú (Oceano).
Eram
cinco homens e uma mulher ("Djatchir"). Eis o grupo inicial do
qual, segundo os guaranis, descende a humanidade. Os mbyá têm o costume de
adotar como sobrenome um dos seis filhos do casal "Nhandeý pý" e
"Nhande Tchir pý". Segundo eles, tal costume visa indicar de
quem descende os atuais índios entre os seis primeiros filhos da humanidade.
O
primeiro casal e seus filhos são os primeiros homens "mortais" da
humanidade, de acordo com a mitologia guarani mbyá. O deus supremo "Nhanderú
etê" gerou três deuses secundários principais para serem seu
intermediário junto aos homens. Tratam-se de: 1) "Kraí"
(Iluminado), 2) "Kraí Rendy Vydjú" (Poder da Luz) e 3) "Kraí
Kendá" (Anjo que mostra o Bem e o Mal).
Este
último, "Kraí Kendá", é quem os católicos chamam de
"Anjo da Guarda" pois é um espírito que adverte os homens sobre o
Bem e o Mal. É aquela voz interior que chamamos "Consciência".
Ao
mesmo tempo que os deuses vindos do espaço sideral percorriam a Terra, o Adão
e Eva da mitologia guarani mbyá vivia num mundo de bonança e prosperidade. Mas
faltavam os netos. O casal tinha seis filhos- cinco homens e uma mulher. Os
filhos não tinham esposas. Se quisesem ter filhos, só a irmã. Porém, mesmo
nos primórdios da humanidade, respeitava-se o tabu do incesto, isto é, irmão
não poderia manter relação sexual com a irmã.
Em
virtude desse problema, o deus supremo do universo "Nhanderú etê"
voltou novamente ao mundo dos espíritos, o "Nheé Rekuaguí",
no qual buscou três mulheres e um homem. Transportou-os em seu "bairý",
a nave voadora que atravessa os confins do universo numa velocidade inimaginável.
As
três mulheres tornaram-se as esposas dos cinco irmãos. Já o homem trazido
pelo deus tornou-se o marido da filha Djatchir (Dona da Noite). Desses
casamentos, nasceram filhos, netos do primeiro casal da humanidade. Os netos,
todos primos, casaram-se entre si. Houve também casamentos com tios. Assim
foi-se passando o tempo e a população humana multiplicando-se no planeta
Terra.
A
população cresceu acentuadamente ao longo do tempo. Todos falavam a mesma língua.
Ao contrário dos católicos, os guaranis mbyás não possuem lenda semelhante
à da bíblica Torre de Babel. Dizem que a primeira língua do mundo, surgida
por inspiração divina, foi modificando-se ao longo do tempo quando grupos
foram afastando-se da tribo original com o objetivo de conquistar a Terra. Com o
distanciamento e a falta de comunicação, tais grupos foram inventando novas
palavras que se tornaram particulares da tribo. Com o tempo, passaram a falar
idiomas cada vez mais diferentes, de sorte que chegou um tempo em que as
diferentes tribos não mais se entendiam.&n! bsp;
As
mudanças apareceram não só apenas nas línguas. Os povos, mesmo primos, foram
diferenciando-se em costumes, hábitos, cultura, vestuário e, principalmente,
religião. Dois eram os principais grupos humanos. O primeiro era os da tribo
dos "Kurupí" (egoístas). O segundo tratava-se dos "Iapó
Gú" (os que vivem nas rochas).
Os
"Kurupís" formavam uma coligação de povos em cuja religião
já não mais se cultuava o verdadeiro deus, o "Nhanderu etê", mas
"espíritos ruins da Terra". Segundo os guaranis, os "Pambá
é Djaguá" (as criaturas terríveis dos primórdios da Terra-
"dinossauros") eram guiados por espíritos ruins. Com a morte das
criaturas, os espíritos desprenderam-se dos animais e ficaram vagando pela
Terra. Com o tempo, povos como os "Kurupís" passaram a cultuar
tais espíritos que apareciam em forma de "fantasma". Conforme
os índios, os "fantasmas" são os espíritos ruins que os católicos
chamam de "demônios". Só vivem na Terra.! São tão medíocres que não
vieram do cosmos. Nasceram da própria Terra, um mundo de provação. Em
guarani, recebem o nome de "Baipotchir" (Raiva de Gente).
Já
os "Iapó Gú" eram os povos que viviam em aldeias de casas de
pedra nas quais contavam com iluminação moderna. Seria a eletricidade?
A
religião dos "Iapó Gú", ao contrário dos "Kurupí",
não invocavam demônios "Baipotchir" como deuses. No
entanto, esse povo também não acreditava em "Nhanderú etê".
Havia alguns entre eles que eram "puros de alma", mas a grande maioria
não passava de gente corrupta moralmente.
Antes
poucos, os "kurupi" multiplicaram-se demasiadamente de sorte
que passaram a ambicionar a conquista do mundo. Entre os "kurupi",
havia um chefe chamado "Karambá", chefe de um poderoso exército.
Sua alma fora dominada por um diabo "Baipotchir" . Alucinado
pelo mal e de alma perversa, "Karambá' ambicionou conquistar os
"Iapó Gú".
Eis
que um dia começou uma gigantesca guerra entre os "kurupi" e
os "Iapó Gú". Ambos povos não dispunham de tecnologia. Fora
uma guerra de "machados de pedra". Mas as batalhas impressionaram pelo
número gigantesco de combatentes. Somavam milhões de guerreiros.
A
guerra toda durou apenas dois meses, mas fora devastadora. Matou tanta gente que
a humanidade ficou reduzida ao mínimo. O local da batalha final situa-se hoje
num ponto do oceano, surgido após o dilúvio, a catástrofe que ocorria na
Terra séculos após a grande guerra dos "kurupí" e os "Iapó
Gu".
O
chefe "Karambá" sobreviveu à catastrófica guerra, mas não
viveria por muito tempo. Sucumbiu a uma doença misteriosa. Já os poucos
sobreviventes entre os "Iapó Gú" tornar-se-iam, milênios
mais tarde, os pais dos povos da antiga Atlântica, a misteriosa ilha do meio do
oceano atlântico, e os incas, conforme diz a lenda guarani mbyá.
Não
se sabe quanto tempo foi, mas as poucas milhares de pessoas que sobraram após a
grande guerra foram multiplicando-se novamente nos séculos de paz que se
prosseguiram. No entanto, as novas gerações tornaram-se mais perversas ainda.
Continuaram a não acreditar no deus verdadeiro, o"Nhanderú etê".
Sucederam-se séculos de inúmeras breves guerras de pilhagem. Tratava-se de um
mundo de mentira, persevidade, pecado e crueldade.
Poucas
tribos eram as que acreditam em "Nhanderú etê". A maioria dos
povos tornou-se idólatra de deuses "baipotchir" .
E
a Terra tornou-se novamente um mundo de total corrupção moral. Numa de suas
passagens pelo planeta, "Nhanderú etê" concebeu a idéia de
que o mundo deveria ser destruído para recolonizá-lo com homens mais puros
como "Nhamanduráý" (Filho do Sol). Concebeu a idéia do
"Dilúvio".
"Nhamanduráý"
acreditava em "Nhanderú etê". Sua fé era persistente. Numa
certa noite, "Nhanderú etê" apareceu em sonho, dentro de seu
veículo voador "Bairý", para "Nhamanduráý"
. No sonho, o deus avisou-lhe que iria destruir o mundo com uma chuva
torrencial. Descendente de uma mortal com o deus "Kraí Kendá",
"Nhamanduráý"foi aconselhado a subir na maior montanha da
terra, único lugar em que a água do Dilúvio não alcançaria. Com ele e sua
mulher "Nhandetchir Ypy", outros dois casais foram avisados
para se salvarem no alto da mesma montanha.
Eis
que quando tinha 86 anos de idade, o grande Dilúvio começou com uma tempestade
nunca antes imaginada. Foi então que a humanidade inteira foi destruída,
sobrando os três casais, sob liderança de "Nhamanduráý" .
Antes
a Terra era um imenso continente. Após o Dilúvio, surgiram os "Para
Guatchú" (oceanos) que dividiram a Terra em vários continentes. Foi
então que o hoje conhecemos como América ficou separado da Europa, África e
Ásia. Antigos rios transbordaram formando mares. Montanhas viraram ilhas.
A
humanidade voltou à estaca zero com três casais. Logo "Nhamandu Ra'y"
ficou viúvo pois sua mulher, que havia perdido a fé em "Nhanderu
eté", falecera de "Ikaruguapá" (paralisia). Outras
doenças dizimaram os outros dois casais pelo mesmo motivo de não terem fé no
verdadeiro deus.
Eis
que "Nhanderú etê"buscou uma mulher para "Nhamandu Ra'y"em
outro mundo espiritual chamado "Nhanderu Vutchu" (Onde o Sol
nasce).
Os
índios guaranis acreditam que a alma boa vai para o céu e o mal fica na Terra
com os diabos. Estes últimos são invisíveis, mas segundo os índios, as
pessoas sentem suas desagradáveis presenças.
Eis
que um dia veio à Terra "Nhanderu Ra'y" para a missão de
ensinar os homens o verdadeiro ensinamento de "Nhandery etê". Segundo
os índios, "Nhanderu ra'y" era "Jesus Cristo".
Por
Milton Moreira Wherá Mirim
Cacique da aldeia dos índios guarani Mbyá de São Miguel, Biguaçu, Santa
Catarina (Brasil)
Na
Ilha de Santa Catarina, tinha uma aldeia que se chamava Tekoa Guassú-Há-Há-Kupé.
Essa aldeia era muito respeitada, porque só moravam caciques, curandeiros,
conselheiros, líderes de instrumentos musicais, e até os líderes de caçadores.
Desta maneira nas outras aldeias tinham somente os segundos líderes.
Tinham
as aldeias chamadas de Itakuruii, Pira’júmboaié e Mossamby, que ficava numa
ilhazinha onde localizava-se o cemitério dos índios. Esses índios eram das
tribos Chiripás e Phaím. Essas duas tribos eram de peles claras, por esse
motivo passaram a ser chamadas de Guarani-Karijós pela sociedade branca, porque
não sabiam a definição certa.
Mais
ou menos por volta de 1.767 índios e 3.600 mulheres e crianças habitavam a
Ilha de Santa Catarina. Nesta época ainda não tinham muito contato com homens
brancos. Ao passar do tempo a infiltração do homem branco foi tanta que
surgiram doenças como tuberculose, bronquite e outras. Essas doenças foram que
acabaram com maior parte dos índios Guarani-Karijós.
Os
índios que restaram ainda sofreram pela segunda vezcom os conquistadores da
Ilha de Santa Catarina, que começaram as matanças dos Guarani-Karijós. Desses
índios sobraram apenas sete casais, que tiveram que fugir para o sul da ilha.
Escolheram a ponta sul da Ilha porque ficava mais próxima do continente. A
travessia aconteceu da ponta da Ilha até a praia da Pinheira. Mas esses casais
de índios não queriam ficar na beira da praia por motivo de poderem ser
massacrados de novo, então tomaram rumo norte até depararem-se com o Morro dos
Cavalos. Ficaram ali até surgir a 1ª Guerra Mundial, que foi por volta de
1914. A partir daí tomaram rumo oeste, próximo a Santo Amaro da Imperatriz. Lá
acharam um lugar chamado até hoje de Rio do Bugre. !
Foi
somente a partir de 1942 que os índios foram aparecendo pouco a pouco na região
de Palhoça junto com os colonizadores. Desses índios Guarani, já granfilhos
destes índios Guarani-Karijós, que vieram a ser nossos pais, restam só nós
atualmente.
A
partir de 1978 começamos a procurar um lugar para ficar, até que encontramos
um lugar aqui no bairro São Miguel, município de Biguaçu. Estamos neste lugar
desde 12 de outubro de 1987. Nós somos os últimos dos índios Guarani-Karijós
que ainda falamos o nosso idioma nato. Por este motivo, queremos parabenizar o
nosso lugar e também a toda a comunidade de São Miguel, Biguaçu e Florianópolis.
Pedimos para os nossos governantes que olhem mais para nós, que ajudem mais a
minha comunidade em termos de alimentos, para que um dia possamos ajudar o
Brasil.
Agradecemos
em nome da comunidade indígena pela compreensão e pela honra que nos deu.
Esta
é a transcrição ipsis litteris do texto manuscrito do cacique Milton Moreira
WHERÁ MIRIM.
O texto foi redigido em 15 de fevereiro de 1989.
A
aldeia dos índios guaranis de São Miguel, no município de Biguaçu (SC),
surgiu em 12 de outubro de 1987. Situa-se às margens da rodovia BR-101, a cinco
quilômetros ao norte do centro de Biguaçu e a 20 do centro de Florianópolis
Essa
tribo, que reúne 79 pessoas, é chamada de "Guaranis Mbýas". "Mbyá"
significa "gente" na língua guarani. O "morubixaba"
(cacique) da tribo é Milton Moreira Wherá, 37 anos.
Classificada
pelos antropólogos de "Mbýas", a tribo se diz, no entanto,
descendentes dos índios Carijós das tribos "Chiripás" e "Phaim",
da Ilha de Santa Catarina. "Essas duas tribos eram de peles claras, por
esse motivo passaram a ser chamadas de Guarani-Karijós pela sociedade branca,
porque não sabiam a definição certa",, escreveu o cacique Milton
Moreira Wherá num pequeno ensaio em que resumiu, por escrito, a história de
sua tribo transmitida oralmente por gerações. O texto data de 15 de fevereiro
de 1989.
"Carijó"
era como os bandeirantes chamavam os índios de língua guarani que vivam no
litoral catarinense nos séculos XVI e XVII. "Carijó" vem de "Cari-yó",
uma palavra derivada de "Cari", que significa "branco" em
Tupi, a língua falada pelos bandeirantes vindos de São Paulo. "Cari"
vem em alusão à pele mais esbranquiçada dos índios guaranis do litoral
catarinense.
Os
índios da aldeia de São Miguel, Biguaçu, contam que seus descendentes, os
"Chiripás" e "Phaim", que falavam um dialeto guarani,
viviam na ilha de Santa Catarina. Eram pescadores.
Afinal,
a Ilha de Santa Catarina era um paraíso da pesca nos séculos XVI e XIX, antes
do estrago (lê-se poluição e degradação do meio ambiente) proporcionado
pela ocupação e crescimento desordenado da população branca (neoeuropéia ou
descendente dos europeus) nesse espaço geográfico. Hoje em Florianópolis e
vizinhanças vivem em torno de 250 mil pessoas.
Os
guaranis Mbýas falam com muita nostalgia da Ilha de Santa Catarina, "onde
tinha fartura de comida e peixe", conforme palavras textuais do cacique
Milton e seu sogro, seu Arcino Wherá, o cidadão mais idoso da aldeia.
"Chiripá"
significa "escuro"; já "Phaim" é "claro". O
cacique Milton conta que eram duas tribos distintas com indivíduos racialmente
diferentes, mas falantes de dialetos guaranis mutualmente compreensíveis. Dos
casamentos entre gente dos dois grupos, surgiu um povo autócone da Ilha de
Santa Catarina (Meimbipe, conforme os índios.
Os
"Chiripás" e os "Phaim" viviam em quatro aldeias, conforme
conta a tradição dos Mbyás de São Miguel, Biguaçu. As aldeias são: 1) Tekoa
guassú Há Há Kupé, 2) Itakuruii, 3) Pira'Jumboaié e 4) Mossamby.
Os nomes perfeitamente lembram as atuais localidades de 1) Cacupe (Há Há
Kupé), 2) Itacorubi (Itakuruii), 3) Pirajubaé (Pira'Jumboaié)
e 4) Moçambique (Mossamby). Sobre esse último, os índios dizem que se
tratava de uma ilhota onde situava-se um cemitério indígena.
A
aldeia de "Tekoa guassú Há Há Kupé", conforme relata a
tradição oral, era muito respeitada já que "nela viviam caciques,
curandeiros, conselheiros, líderes de instrumentos musicais e até os líderes
de caçadores", conforme escreveu o cacique Milton Moreira Wherá.
A
CHEGADA DOS HOMENS "BRANCOS"
- Eis que apareceram os "homens brancos". A tradição oral dos índios
de São Miguel conta que os Chiripás e os Phaim sucumbiram a epidemias de
tuberculose, bronquite e outras doenças trazidas pelos brancos contra as quais
os índios não tinham defesa imunológica. As doenças foram responsáveis pela
morte de boa parte dos antigos habitantes da ilha, contam os Mbyás de São
Miguel, Biguaçu.
Apesar
das epidemias, relatam os índios, ainda sobraram um bom número de silvícolas
na Ilha de Santa Catarina. "Os índios que restaram ainda sofreram pela
segunda vez com os conquistadores da Ilha de Santa Catarina (os
brancos), que começaram as matanças dos Guaranis-Karijós",
observa o cacique.
ÊXODO
- Os índios que sobraram na Ilha de Santa Catarina, relata a tradição
oral dos Mbyás, tiveram que fugir. "Desses índios sobraram apenas sete
casais, que tiveram que fugir para o sul da ilha (de SC). Escolheram a ponta sul
da Ilha porque ficava mais próxima do continente. A travessia aconteceu da
ponta da ilha até a praia da Pinheira (Hoje no sul do município de Palhoça).
Mas esses casais de índios não queriam ficar na beira da praia por motivo de
poderem ser massacrados de novo, então tomaram rumo norte até deparem-se com o
Morro dos Cavalos", escreveu Milton! Moreira Wherá. A fuga, segundo ele,
deu-se no século XVIII.
REFÚGIO
- Os
índios viveram em relativa paz no Morro dos Cavalos até entre o final do século
XIX e o início do século XX. Um bom grupo dos descendentes deles rumou para as
matas do interior de Palhoça, entrando em território de Santo Amaro da
Imperatriz, indo instalar-se na região popularmente conhecida por "Rio dos
Bugres". Por quê? Consequência da expansão da colonização branca e dos
conflitos de terra.
O
nome "Rio dos Bugres" alude à constante presença de índios
kaingangues e xoklengs, falantes de línguas das famílias kaingangue e jê
respectivamente. A tradição oral dos guaranis de São Miguel, Biguaçu, relata
inúmeras histórias de contatos não amistosos entre os guaranis e os
"bugres", comumente chamados os "botocudos" (que usam
espetados nos lábios, orelhas e bochechas pequenos pedaços de madeira chamados
'botoques' como os kaigangues e xoklengs, tidos pelos Mbyás como "gente
arredia e de difícil trato".
De
índole mais dócil e pacífica, os guaranis Mbyás não sofreram a ação dos
bugreiros, mas sua tradição oral não é isenta de histórias de violências e
conflitos com a sociedade branca, inclusive com os "bugreiros".
Mas,
voltando ao assunto índios, ao longo do tempo, o Morro dos Cavalos, onde
estavam os guaranis Mbyás que se dizem descendentes dos "Chiripás" e
"Phaim" fugidos da Ilha de Santa Catarina no século XVIII, passou a
ser ocupado também por índios guaranis vindos do Rio Grande do Sul e do
Paraguai. Estes últimos saíram de suas terras devido a conflitos de terras
originários da expansão da colonização branca.
Surgiram,
então, dois grupos distintos de índios guaranis na reserva de Morro dos
Cavalos. Um dos chamados "Mbyá", que se dizem descendentes de
guaranis da Ilha da Santa Catarina. Já os chamados "paraguaios" são
os Nhendevá", que, tal como "Mbyá", também significa
"gente" na língua guarani. Existe também um terceiro grupo de
guaranis que se chama "Kayová".
O
grupo Mbyá, conforme o relato do cacique, tinha uma língua originária do
antigo dialeto da Ilha de Santa Catarina. Com o tempo e em função do contato e
os casamentos com indivíduos do grupo "Nhendevá", os Mbyás foram
falando mais o dialeto Nhendevá.
Eis
que nos anos 1960, por iniciativa do pai do atual cacique Milton, o quase
esquecido dialeto "como nossos ancestrais falavam na Ilha de Santa
Catarina" passou a ser incentivado a ser falado entre eles. O pai de
Milton era líder do grupo e a decisão de falar a "nossa língua"
foi fator de identificação do grupo, que foi distinguindo-se da maioria
Nhendevá. "Nós somos os últimos dos índios Guarani-Karijós que
ainda falamos o nosso idioma nato", escreveu Milton. "Idioma
nato" refere-se à antiga língua dos índios Chiripas e Phaim ou algo próximo.
Na
década de 90, registrou-se a migração de índios guaranis para vários pontos
de Santa Catarina. Aqui uma lista de onde grupos deles assentaram-se:
1)
Palhoça, 2) Biguaçu, 3) Guabiruba, 4) Itajaí , 5) Navegantes, 6) Araquari. ,
7) Joinville., 8) Barra do Sul. , 9) São Francisco do Sul., 10) Joinville, 11)
Passo de Torres, 12) Garuva, 13) Treze Tílias, 14) Cunha Porã, 15) Ibicaré,
16) Itapiranga, 17) Dionísio Cerqueira, 18) Guaraciaba, 19) Barra Velha, 20)
Jaguaruna. 21) Araranguá e 22) Guaramirim.
Em
12 de outubro de 1987, os Mbyás do cacique Milton Moreira Wherá Mirim
assentaram-se em São Miguel, Biguaçu, às margens da BR-101, num antigo
camping abandonado. Hoje são donos da reserva, apesar de ainda não estar
totalmente legalizada pelo Governo Federal, o que deverá acontecer em poucos
anos.
Em
Santa Catarina, vivem atualmente em torno de oito mil índios das tribos
guaranis, xoklengs e kaingangues. Os índios de Santa Catarina, além dos de
outros estados brasileiros, somam 270 mil indivíduos, o que representam 0,2% da
população brasileira. Esses 270 mil índios estão divididos em 206 etnias e
170 línguas.
Mas,
voltando aos guaranis Mbýas, nos últimos 11 anos, os índios de São Miguel,
Biguaçu, conseguiram melhorar sua aldeia. Ganharam luz elétrica, melhoraram o
abastecimento de água, tiveram uma escola instalada em sua reserva neste ano de
1998 e ampliaram amizades junto ao povo de Biguaçu.
HISTÓRIA
ORAL - A
história oral dos índios Mbya é riquíssima. Mas eles não a registraram por
escrito. Só agora, nessa década de 90, é que os Mbyás estão utilizando a
escrita, adaptada ao português. Eles já possuem uma escola indígena na
aldeia, mas não há ainda cartilhas em guarani Mbyá. Mas isso é outro
problema.
Esses
índios, no entanto, não escrevem frequentemente. Isso deve-se ao fato que a
escrita não está na tradição deles e escrever é um exercício árduo para
quem não está acostumado ou não possui uma sólida escolaridade.
O
cacique Milton Moreira Wherá escreveu em 15 de fevereiro de 1989 um pequeno
resumo da história de sua tribo. O manuscrito foi passado a limpo a máquina de
escrever e a cópia foi xerocada. Esse texto, tudo que existe registrado por
escrito sobre a rica história oral dessa tribo, é utilizado pelo cacique nas
aulas da escolinha de sua aldeia.
No
entanto, o vasto material que se pode extrair da história dessa tribo, relatada
de geração a geração e contada nas reuniões coletivas entre eles, está a
espera do registro por escrito.
Qual
a origem dos nomes "Cacupé", "Pirajubaé", "Itacorubi"
e "Moçambique", bairros e praia respectivamente da atual Florianópolis?
Desconheço
a tradução dos nomes desses lugares da ilha de Santa Catarina em livros históricos
de autores catarinenses. Não sei se alguém já apresentou alguma tradução a
respeito desses nomes. A tradução que apresento neste breve artigo, que pode
ser diferente a de outros autores, vem de uma fonte fidedigna: os índios
guarani mbyá, da aldeia de São Miguel, em Biguaçu.
Esses
índios se dizem descendentes dos "carijós", os antigos habitantes da
ilha de Santa Catarina. Os "carijós" foram quase totalmente
exterminados por doenças e escravidão pelos "bandeirantes", nos séculos
XVI e XVII.
Vale
lembrar que o nome "carijó" era dado aos guaranis que viviam no
litoral catarinense pelos bandeirantes, os temíveis caçadores de índios
vindos de São Paulo. "Carijó" (cari-ió) deriva de "cari",
que significa "branco", em alusão à pele mais esbranquiçada dos
nativos catarinenses. Os índios chamavam a si mesmos de "avá" ou
"abá", cuja tradução é "gente". Já os
"bandeirantes" eram conhecidos pelos nativos por "tapuya" (bárbaros).
Conforme
os guarani de Biguaçu, seus antepassados que habitavam a ilha de Santa Catarina
pertenciam a dois grupos distintos chamados "Chiripá" (escuros) e
"Phaim" (claros). Originários do atual Paraguai, migraram rumo ao
litoral catarinense séculos antes da chegada dos europeus. Em função dos
casamentos interétnicos entre os dois grupos falantes de dialetos guaranis
mutualmente compreensíveis, surgiu o povo indígena nativo da ilha que os
colonizadores brancos encontraram nos séculos XVI e XVII.
Segundo
os guarani mbyá de Biguaçu, "Cacupé" era uma grande aldeia onde
residiam caciques, curandeiros, conselheiros, músicos e caçadores. Vem de
"Tekuá guassú Há Há Kupé", que significa "Terra
Grande do Pé de Erva Mate". Já "Pirajubaé", outra aldeia,
vem de "Pirá'Jumboaié" (Outro tipo de peixe amarelo).
Reporta-se à abundância no local de um tipo de peixe amarelo que os antigos índios
carijós conheciam por "Pirá'Jumboaié".
"Itacorubi"
é a pronuncia aportuguesada de "Itakuru-í", uma espécie de
passarinho. O pássaro é o "itakurú". O "í" significa
"pequeno" no idioma guarani. Portanto, "itakuru-í"
significa "itakuru pequeno", um passarinho, segundo os guarani mbyá,
existente em abudância próximo à antiga aldeia que passou a ser conhecida por
esse nome.
Já
a praia de "Mossambique" não tem nada a ver, segundo os índios, com
o país "Mossambique", da costa oriental da África. O nome vem de
"Mossamby", que significa "cemitério". Segundo os
guarani de Biguaçu, "Mossamby" era uma pequena ilhota próxima à
costa da ilha de Santa Catarina onde os índios executavam seus deliquentes.
Sim, os carijós aplicavam a pena de morte, contam os guarani de Biguaçu.
Consistia-se no enforcamento do condenado numa árvore na ilhota do "Mossamby".
Onde
está hoje essa ilhota? Segundo os índios de Biguaçu, a ilhota de Mossamby,
que ficava quase encostada à ilha de Santa Catarina, já não existe mais. O
pequeno estreito que a separava da ilha de Santa Catarina está hoje ligado por
aterro surgido pela erosão, provavelmente pelo desmatamento da costa durante os
últimos séculos. Acreditam os índios que a ilha fica perto da atual praia de
Mossambique. Daí à alusão ao nome pelo qual o lugar passou a ser conhecido.
A
ilha de Mossamby era tida como maldita por causa da proliferação de espíritos
ruins, certamente almas penadas dos executados. O interessante é que hoje a
praia de Mossambique volta e meia é percorrida à noite por pessoas que querem
ver discos voadores. Não seriam "espíritos voadores"?
Os
índios guarani mbyá têm grandes histórias.
Certa
vez estava entrevistando um senhor idoso de Governador Celso Ramos a respeito de
qual era a comida dos antigos moradores do interior de Biguaçu no começo do século
XX. Buscava informações para uma pesquisa histórica.
-
Os antigos comiam macaco, contou-me o informante.
-
Macaco? Que interessante. Como era o sabor? O senhor já comeu macaco?,
indaguei-o.
-
Não. Nunca. Isso era comida de matuto porco que gostava de comer nojeira. Ora,
onde já se viu! E eu tenho cara de comer macaco, meu filho?!, respondeu-me o
senhor com o ar meio arrenegado.
Curioso,
fui questionando-o sobre aquela informação interessantíssima. Afinal, já
havia lido a respeito de hábitos alimentares dos índios que os colonizadores
portugueses incorporaram. Os índios comiam macaco. Muitos portugueses que
chegaram ao Brasil juntaram-se com as índias e dessas uniões nasceram mestiços
conhecidos por "caboclos" ('gente do mato', em tupi-guarani). O povo
brasileiro descende em boa parte parte desses mestiços (não esquecendo dos
negros. Mas isso é outra história).
Os
caboclos e colonos brancos que tiveram contato com eles, como os portugueses açorianos
que chegaram a Santa Catarina no século XVIII, incorporaram o hábito indígena
de comer macaco, inclusive, às vezes, acompanhado de "pirão d'água"
(do tupi, 'pirá''(peixe) + uí (farinha de mandioca)= pirá'ui=pirão).
Com
a devastação das florestas, o hábito de se comer macaco desapareceu ao mesmo
tempo que esses bichos tornaram-se cada vez mais raros e os hábitos alimentares
dos brasileiros foram mudando.
Foi
então que meu entrevistado disse que até no começo deste século, ainda se
podia encontrar algum colono do interior de Biguaçu e Governador Celso Ramos
que apreciava caçar e comer macaco.
-
E como é que o pessoal comia macaco? Frito? Grelhado?, perguntei.
-
Não. Ensopado.
-
Ensopado?
-
Sim. Eles cortavam a cabeça do macaco e jogavam na sopa para engrossar o caldo,
observou.
-
E era gostoso?, indaguei.
-
Se era gostoso? Meu Deus do Céu! Era uma delícia.

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De: keline <kelinejac@hotmail.com>
Enviado:quarta-feira, 23 de março de 2005 23:35:04
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Assunto:Fw: A saga dos deuses guaranis!