EGUNITÁ

NA VISÃO DE MÃE SILVIA D´INHASÃ

 

Sobre o controverso assunto, a minha postura é bastante simples e objetiva.

É mais que certo que Egún Nitá não é originalmente uma qualidade da senhora dos raios, sendo sim, uma sunã / dijina / nome de santo (que cada um chame como queira) que se popularizou. Estou mais que de acordo com um e-mail postado por um dos irmãos anteriormente. Entretanto, apesar de estar conforme com o conteúdo, reprovo e recrimino as formas....

Explico-me:

Dada a crescente reafirmação da facção "candomblística" desde de uns 20 anos para cá, aproximadamente, existem alguns de seus membros que insistem em serem mais papistas que o próprio Papa! Exaltando formas, estruturas, conceitos e versões africanizadas que nunca tivemos e que jamais teremos (usando conceitos expressões e inclusive escrita que não dominam; ora para intimidar, ora para inclusive menosprezar os demais com o pouquíssimo conhecimento que detêem sobre o tema). Já que, devido à visão sincrética do culto ao Orixá em todas as colônias onde este foi implantado, chegamos a um nível de fusão onde o retorno total ao primário resulta impossível por razões óbvias.

Tal como em outros paises aonde chegaram o culto ao Orixá (e conheço alguns em primeira pessoa) o culto ao Orixá não tem nada que ver com o que é feito em África e, acredite-me, sendo a distorção ainda maior na casa dos que se dizem puristas!!!

Como é possível hoje, falo em nível de Brasil, dizer que Egun Nitá não é uma qualidade de Oyá quando existem tantos (não encontro um superlativo mais expressivo, ou eu o usaria) yaôs consagrados a esta e, ainda mais, muitos destes que já firmaram raízes e procriaram, da forma mais respeitosa, diga-se de passagem.

Em Recife, por exemplo, podemos encontrar a mãe Tita, fomo de Oyá, Djalma de inhasã, prestigiosos sacerdotes do culto, de altíssimo conceito regional, cujos nomes estão diretamente vinculados a esta "qualidade". Como dizer então que não é uma qualidade de Oyá, já que estes podem ter entre 20 e 30 anos de culto ao Orixá e estão cada um deles vinculados ao culto em uma facção distinta?

Se a questão é falar em legitimidade, se poderia falar nos sacerdotes (Dotés) de Jêge (Djéjés / Daomedanos) cujas casas estão repletas de Ogum, Oxum, Iemanjá, Xangô, que são divindades YORUBANAS /NAGÔS e não divindades Jêjes, que seria o culto que professam. Ou Mencionar as importantíssimas casas de culto Kibundo (Angola) que estão repletas de divindades Djéjés ou Yorubanas, ou ainda, as Yorubanas que estão repletas das divindades das culturas anteriormente mencionadas. Ou ainda pior, aqueles que, achando-se por cima da verdade, cultuam todas as diretrizes do candomblé sem nenhum pudor!!!!

E isso podemos ver diariamente, inclusive aqui em nosso Foro de Debates, onde vejo muitos irmãos, em um mesmo texto, e alguma vez na mesma frase, mencionar Olorum e Zambi (sendo ambas nomenclaturas, formas de anunciar um mesmo Deus só que em culturas completamente diferentes....! A primeira em yorubá (Nagô) e a segunda em kibundo (Angolano). Vê a que mistura está por todos os lados, sendo hoje impossível desassocia-las?

O que vamos dizer aos ilustríssimos pais e mães de santo que se anunciando de ketu, cantam para Zaze, Azerí, Tempo, Mameto Kaiara (divindades de outras culturas - Jêjes e Angolanas)? Como dizer às centenas de adéptos de Ketu, Jêge, Angola que foram iniciados para Ogum Xorokê, mas que esta divindade não existe, sendo até seu nome uma contradição? E ainda mais que, em minha última viagem ao Brasil, encontrei em um mercado público um livro com relatos desta divindade (Ogum Xorokê) com explicações "profundas" (essa é piada!) sobre seu caráter e conduta para cultua-lo. Como quente boca diz o que quer, quem tem papel e lápis.... Não deixei de comprar o livro, obviamente, já que me pareceu ser uma relíquia referente ao culto ao Orixá!!!

E, se o caso é de ir mais longe com os puristas, se pode inclusive mencionar o próprio culto aos Orixás: Que alguém me diga que em África se utilizava azeite de oliva para Oxalá, Iemanjá, etc; que se oferecia/oferece os majestosos banquetes que hoje exigimos de nossos iniciados ou as vestes e indumentárias tão elaboradas....

O grande problema é que o ser humano é orgulhoso e separatista. Inclusive nós que vamos nos alardeando como "espiritualizados" (no amplo sentido da expressão) e fazendo muito alarde de conhecimento, devoção, maturidade, religiosidade e, sobretudo, de sabermos nos localizar muito bem dentro do estado de nosso Odú, reconhecendo-o em sua suma complexidade (e bota complexidade, já que estes são fundamentalizados em pura filosofía), mas quando não nos pomos de acordo colocamos de lado o nosso "lado espiritualizado" e exaltamos o nosso lado mais "satanizado".

Com toda a sinceridade que o meu respeito por sua pessoa, trabalho, paciência, generosidade, etc., que qualquer um que participe desta lista e que tenha o mínimo de sentido comum pode ver, por razões óbvias, lhe digo que siga cultuando Egún Nitá como qualidade, sim! E quem crê que isso não procede, que não é legítimo, então que comece a tirar as garrafas de azeite de oliva de seus pegís e com elas os dezesseis búzios e os colares, sejam de cristal ou de louça, bem como a maioria das vestes, e inicie seus filhos no ìbúlòkò e não em pegís estruturados em concreto, etc., e caso se mencione tudo, o culto ao Orixá (tanto na Umbanda como no Candomblé) não seria viável nem no Brasil, nem em nenhuma outra parte do mundo que não fosse a África.

O que as pessoas gostam mesmo é de dar pitaco negativo no trabalho alheio... Que cada um comece os seus purismos dentro de sua própria casa, já que falar é muito fácil, em especial quando se trata do trabalho, do esforço e da dedicação alheia.

É verdade que devemos assistir ao nosso culto tentando manter e preservar determinadas sistemáticas, guardar certas formas, preservar o máximo possível os mitos e ritos; mas outra coisa é jogar com os demais!!!

Sem mais, fico agradecida por sua consideração por minha opinião, desculpando-me perante ao senhor e aos demais irmãos, se me fiz muito extensa em minha narração.

 

     Silvia de Inhasã.

 silviabeltrao@yahoo.es